segunda-feira, 26 de novembro de 2012

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                O domingo começava frio. Frio e gris, após uma noite de sábado chuvosa, na qual todos seus planos tinham sido adiados. Não foi encontrar com os amigos, e não iria também naquela manhã ao clube; restava apenas levantar, tomar café e pegar um bom livro ou jornal para ler. Enfim, era uma típica manhã outonal em plena primavera.
                Levantou, olhou-se no espelho do lavatório e viu seu rosto cansado, mas alegre por mais um dia que se iniciava. Decidiu que iria fazer algo diferente naquela manhã, e foi o que fez. Tomou banho, trocou de roupa, desceu as escadas que o levavam a hall de entrada, cumprimentou o porteiro e saiu feliz pela porta da frente, contrariando todo o clima pesado que as pesadas nuvens cinzas formavam sobre sua cabeça.
                Dirigiu-se até o café naquele pequeno mall que se instalara a quadras do seu apartamento. Era um café pequeno, mas acolhedor o suficiente para aquela manhã, não tão acolhedor como os cafés que outrora frequentou na região central quando estava hospedado em Santiago, mas este era suficiente para sentar, ler o jornal e ver o movimento de ir e vir dos carros e pessoas que saiam da Igreja logo à frente, instalada em um pequeno largo, com sua arquitetura eclética, muito comum as igrejas construídas pelos descendentes de italianos.
                Puxou a cadeira da primeira mesa a esquerda da entrada, aquela que sempre gostava de sentar, pois propiciava a vista integral da entrada principal do templo, a qual gostava de apreciar por conta do seu singular desenho e adornos que mesclavam vários símbolos cristãos. Sua atenção só foi interrompida quando o garçom lhe trouxe o cardápio, sem saber que ele era freguês habitual e cujo pedido não modificava nunca. Notou, com esse gesto, que ele era novo, e com isso, voltou sua atenção total para ele.
                Seu rosto era emoldurado por uma barba rala, bem recortada e que acabava suavemente em uma linha fina próximo ao queixo, ressaltando seus lábios mais grossos que se moveram e formaram um belo sorriso em sua direção. Ele não pode deixar de notar, e sorriu junto em retribuição, gesto esse que foi percebido e entendido por olhos de um verde tão profundo que o fizeram se perder no infinito quando estes o olharam.
                Com um gesto mecânico, pegou o cardápio e abriu, mesmo sabendo o que iria pedir. Qual não foi sua surpresa quando escutou uma voz grave e acolhedora lhe dizendo as opções para aquela manhã fria e gris. Era ele, que ainda não o conhecia, que não sabia que ele nunca pedia outra coisa, senão o usual para seu café; um café e um pão, nada mais.
                Mas, dessa vez, seduzido pela voz, voltou-se em direção a ela e tentou prestar atenção as opções que o outro lhe dizia, mas não conseguiu, sua mente foi divagando em direção ao som inebriante que seus ouvidos recebiam e seus pensamentos se perderam em cenas e emoções que lhe tomaram a mente, desejando que o outro também lhe tomasse pelos braços e o apertasse perante seu corpo forte que por vezes se mostrava através da camiseta vermelha colada em sua pele arrepiada pelo vento frio daquele outono atípico.
                Ele então tentou retomar a lucidez e fez o pedido, não o usual, mas sim a sugestão que o outro lhe dera. Resolveu arriscar, resolveu que aquela manhã, que começou tão fria e cinza iria ganhar novas cores, pelo menos para ele. Naquele momento não mais pensou em nada, não mais olhou para a porta principal do templo, mas mudou sua posição, deslocou sua cadeira de modo que pudesse olhar com mais detalhes aquele que outrora lhe tirou a atenção.
                A observação foi notada, e por nenhum dos dois foi disfarçada e nem por nenhum momento ficaram rubros com essa ação, pelo contrário, ficaram sim satisfeitos com o gesto, orgulhosos de se mostrarem interessados um ao outro, orgulhosos de terem em uma manhã fria de primavera, transformá-la em uma radiante manhã quente de verão, que aquecia seus corações.
                O tempo transcorreu, seu café da manhã foi servido sob os olhos atentos dele, que por vezes era acompanhado por um leve sorriso de canto de boca, ou por um pequeno menear afirmativo de sua cabeça. O tempo transcorreu, seu café terminou, e seu tempo de deslocar-se dali estava chegando. Em um ritual, juntou o jornal que nem chegou a ler, depositou-o sobre a mesa, dirigiu-se ao caixa e acertou seu consumo, dando-lhe nesse pequeno trajeto mais um olhar, que em sua mente seria o último, pois ele iria e o outro ali ficaria.
                E foi o que fez, dirigiu-se a saída, sem olhar para trás, mesmo tendo a vontade de ter olhos para ver pelo menos por mais uma vez, ele. E foi ao pisar pela soleira da porta, que sentiu o apertar forte em seu braço, parou e voltando-se na direção oposta, sua boca ficou a centímetros da dele, seus olhos se alinharam e suas respirações podiam ser ouvidas.
                Só se lembra de que naquela manhã outonal de primavera, seus lábios encostaram-se aos dele, seus corpos se tocaram, e suas mentes não pensaram em mais nada, a não ser um no outro e naquele momento que se seguiria em diante, quando o outro lhe disse...

5 comentários:

  1. Bahh, o Lucas acertou! Faltam três então, é isso?

    Aguardemos!

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  2. Depende, Peter! Depende do teor de cafeína que existia nos antigamentes...

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  3. Café nas veias... hahahahaha! Mas tipo aquele do cara que foi surpreendido por uma ligação no meio do expediente ninguém conta, nzé? Hahahahahaahahaha!
    Querido: Mister Fred Gostoso não consta em qualquer menu virtual... esse tem que pedir "ao vivo" para um bom barista - de preferência... hehehe! Bjos!

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  4. Mas meu querido... quem precisa "pedir" é você... hahahahaha! Bjos!

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  5. Acho que me perdi entre o ultimo e esse.... cadê o camarada da piscina, o do carro o do parque????? Preciso ler tudo outra vez... me perdi no caminho.
    beijos Mabe

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