Ir
ao clube em plena tarde de quarta-feira, era rotineiro para ele, afinal, seu
horário de trabalho era flexível, e isso lhe permitia alguns privilégios em
relação ao outros. E nesse dia não seria diferente, uma tarde de sol, de
piscina vazia, de tempo ocioso que seria preenchido com mais ócio.
A
vaga no estacionamento era perfeita para deixar o carro lá, a tarde toda sem se
preocupar, e o boa tarde, dado ao porteiro e aos demais funcionários, que já o
conheciam há tempos, indicava mesmo que aquela tarde seria boa e tranqüila,
perfeita para relaxar dos dias anteriores que o tinham atormentado tanto.
Por
uma questão de superstição, ou mania mesmo, procurava sempre pegar o mesmo
armário para guardar sua roupa, dizia que era também para facilitar a memorização
e não se perder perante aquele labirinto de pequenos armários que tomavam conta
do vestiário. E lá se foi ele em direção a piscina, acompanhado apenas de seu
boné e seu celular com fone de ouvido, deixando todo o restante seguro dentro
do armário de número 167 localizado na parte superior daquele canto do
vestiário, seu canto.
Como
já era de imaginar, a piscina estava praticamente vazia, apenas duas mulheres
deitadas nas espreguiçadeiras plásticas brancas, uma criança a brincar na
piscina infantil e a água límpida a oscilar suavemente com a brisa refrescante
do final do verão. Cenário perfeito para uma tarde ociosa de relaxamento e
algum exercício físico.
Ainda
era possível mergulhar, e foi o que fez após quebrar o espelho d água com a
ponta do pé direito no lado mais fundo da piscina. Olhou para frente, aquela
enorme quantidade de água pronta para segurar seu corpo de forma suave e
refrescante; olhou mais uma vez, abaixou, tomou posição e...mergulhou.
Rapidamente a água fria foi preenchendo toda a superfície do seu corpo,
aplacando o calor que tomava conta dele segundos antes, em arrepio foi surgindo
de forma instantânea na sua espinha enquanto ele impulsionava seu corpo com os
pés e o curvava para cima, afim de quebrar a superfície recém ondulada da água.
Em
pouco tempo chegou a borda oposta, tocou a parede de azulejos azuis-claros e
dobrando seu corpo se sentou e tomou fôlego para seguir em sentido oposto. Esse
trajeto foi repetido mais algumas vezes, por mais um tempo; tempo o qual não se
importava em contar, não nessa tarde, não nesse dia de sol e água que
refrescava sua mente tão ocupada anteriormente.
Após
algum tempo, já tendo nadado o suficiente para se sentir descansado, resolveu
que era hora de deitar ao sol e deixar os pensamentos voarem para qualquer
lado, sem limites. Saiu da água, escolheu o local que queria dentre todas as
opções possíveis, alinhou a espreguiçadeira em direção ao poente e deitou-se.
Pousou o boné na fronte, ajustou os fones, sintonizou a estação de rádio
memorizada em seu celular e recostou-se confortavelmente, escutando as músicas
e outros sons que ainda era capaz de ouvir pelas frestas dos fones.
Por
um momento ou outro sua atenção era atraída por um barulho mais forte ou fora
de compasso, mas logo ele voltava a sua atenção para seus pensamentos, ou
melhor, para a ausência de pensamentos, para o vazio que lhe preenchia a mente
e relaxava seus músculos ora contraídos por conta do nado recém realizado.
Um
barulho estranho entrou em seus ouvidos, era a catraca da portaria da piscina,
alguém tinha entrado ou saído. Seu instinto curioso falou mais alto e resolveu
olhar naquela direção. Nada viu. Pelo menos em seu campo de visão, nada viu.
Por fração de segundos, alguém tinha entrado e ele não sabia quem era. Ou seria
imaginação tua? Resolveu sentar, olhar as horas. 16:30h. O horário de verão já
tinha terminado, mas o sol ainda era quente e estava alto, ainda restariam
algumas horas de exposição solar para desfrutar.
Como
em um espamo, viu uma sombra passar em sua direção e voltou rapidamente seu
olhar na direção oposta a essa. Era ele; por segundos que pareceram horas,
entre o entrar e o caminhar em sua direção, viu quem tinha entrado. Era ele. E
ele o olhou, diretamente. E este retribuiu não só o olhar, mas o acompanhou até
este se sentar em uma espreguiçadeira fora de sua visão.
Voltou-se.
Não poderia ficar olhando, não poderia mudar a sua posição, não poderia mover o
local todo para estar de frente a ele, não poderia vê-lo se não tivesse que
mudar tudo. Resolveu então não mudar nada. Recostou-se novamente, ajustou o
boné, os fones, fechou os olhos em direção ao sol e relaxou.
Relaxou,
mas algo dizia que não estava só; algo lhe incomodava, algo lhe tirava a
atenção ao nada, que até então era seu companheiro naquela tarde quente e
ensolarada. Não podia mais ficar alí, estático, estava inquieto, precisava
agir, precisava se mexer. Os fones foram arremessados juntamente com o boné de
encontro ao encosto, e em um movimento contínuo se levantou e foi em direção a
borda da piscina, mergulhando em seguida.
Saiu
da água na borda oposta, de fronte aos já conhecidos azulejos azuis-claros de
outrora; voltou-se e viu, lá estava ele, olhando em sua direção, estático,
parado, sentado no lugar escolhido. Resolveu ignorar, tomou fôlego, deu impulso
e seguiu pela água, braçada após braçada em direção a outra borda. Sem hesitar,
deu retorno e assim em uma seqüência ritmada, atravessou ida e volta os 25
metros que separavam uma borda da outra.
Entre
uma chegada e uma partida, olhava rapidamente em direção a ele, e lá estava
ele. Qual não foi sua surpresa quando em um desses momentos, não o viu mais.
Teria ele ido embora? Teria ele mudado de lugar? Teria ele sido uma miragem?
Mas seu pensamento parou de divagar quando foi surpreendido pelo oscilar da
água a poucos metros dele. Era ele. Era ele nadando em sua direção. Ou em
direção a borda em que se encontrava.
Ele
não teve dúvida, esperou. Esperou ele chegar, esperou ele olhar nos seus olhos,
para então sair e deixar ele naquele lugar. Nadou, mais uma vez. Chegou à borda
e viu que ele tinha feito o mesmo, e não tendo o que fazer, fez. Nadou na
direção oposta. E por assim foi mais uma vez...
Por
uma vez, sentou na borda e ficou a esperar a reação dele, e foi a mesma, nadou
em sua direção. Resolveu esperar, sentou e esperou. Quando este se encontrava
próximo, ele parou de nadar e sentou. Seus olhos se encontraram pela primeira
vez sem estarem em movimento. Olharam-se e nada falaram. Não falaria. Nada.
Mas,
quiseram os deuses que regem os céus, uma rajada de vento gelado cortou aquela
tarde de ar quente, batendo em suas peles resfriadas pela água; a pele dele
ardeu, e de sua boca saltou um comentário perspicaz, agradável e que seus
ouvidos sentiriam de forma agradável, ordenando aos seus lábios que sorrissem
na direção dele.
E
ele o fez. E o silêncio estava quebrado. E o vento cessou, o ar esquentou, e no
ar por cima da lâmina d água ouvia-se suas vozes, conversando alegremente, como
se conhecessem a tempos; tempos que iriam parecer anos em um futuro muito
próximo.
Tempos
que iriam começar assim que decidiram quebrar mais uma vez a água e irem de
encontro à borda de azulejos azuis-claros, dessa vez nadando juntos, em
compasso, harmonicamente.
E
juntos, também decidiram...
...decidiram sair da piscina.
ResponderExcluirMabe, continuo gostando e acho que vc é meio sádico....kkkkkk
Fica contando e ainda não saiu com nada.... efetivo.
Por falar nisso, o que aconteceu no banco do parque????
Beijos...aguardando.
... uma vez. Puro palpite (rsrs)
ResponderExcluirHumm revisitando memórias é?!
ResponderExcluirEssa eu acho que conheço... kkk
Sugestão... já que não o fez naquela época, porque não aproveita e afoga o maledeto agora. Ou não, né?! ;-)
Na verdade o tempo nos dá sabedoria para entender muitas coisas...
Abração!
Hum... tô sentindo um ar de "true story" aí!
ResponderExcluirAbraços!