Entre ir de um mercado a outro, o transito complicava, o
tempo corria e a velocidade do carro diminuía; só restava assim olhar pela
janela, já que o rádio estava devidamente sintonizado na estação preferida que
só tocava anos 80 internacional.
Já passava do meio-dia, o tempo estava abafado, mas não
havia sol; havia sim um enorme encontro de nuvens grandes que deixavam o céu
gris, mas a probabilidade de chuva era pequena, mesmo com o tempo abafado.
A janela do seu lado estava aberta, o braço jazia pelo lado
de fora, mesmo correndo o risco de ficar com marca da manga da camisa, mas era
costume isso acontecer e ele não se importava. Pela outra janela o transito
passava, passava e passava; passavam também as pessoas, pedestres, motoqueiros,
ônibus... Sinal aberto, sinal fechado, placa de pare, faixa de pedestre, tudo
transcorria normalmente em um fluxo ordenado de carros, asfalto, escapamentos e
sons aleatórios.
O carro da frente abre passagem, muda de faixa e surge a
primeira imagem, pelo retrovisor alheio nota-se apenas o semblante, os olhos,
sobrancelhas, bem desenhados, proporcionais. Quando o carro assume a sua
direita, o acelerador sofre uma pequena pressão, as janelas se alinham e surge
uma visão mais completa. Perfil alinhado, barba feita, camisa de manga longa
com abotoadura, algo realmente singular; a placa era de pare, o transito pára,
as janelas se desalinham, o carro fica para trás...
A visão pelo retrovisor próprio é perfeita; olhos castanhos,
nariz proporcional, boca idem, cabelo penteado sem uso de gel, impecável. O
transito segue, ele segue, e decide seguir; a seta alheia é acionada, a mudança
de faixa mais uma vez lhe favoreceria, decide dar passagem, mais uma vez as
janelas se alinham, e dessa vez os olhares se cruzam; por segundos parados pelo
tempo, seus olhos trocam informações, estão alinhados, como as janelas dos seus
carros, como seus carros.
Mas, quis o destino que o transito seguisse seu fluxo, e
para isso era preciso dar passagem. E o freio foi acionado, de leve,
desalinhando os carros, as janelas, os olhos, e o carro mudou de faixa, ficou a
frente. O transito seguiu o fluxo, placa pare, semáforo vermelho, verde, e o
fluxo seguia. Decidido também a segui-lo, ele foi; seguiu mesmo tendo o tempo e
os compromissos contra, decidiu que valia a pena só pela emoção de ficar
olhando pelo retrovisor alheio e ver apenas o semblante, mas era o semblante
mais encantador que já tinha visto.
A rua os estava levando para longe de seu local de destino,
deveria continuar? Deveria, afinal eram os olhos que estavam o chamando... E
esses olhos já haviam percebido que seus olhos o estavam seguindo. Pelo retrovisor
alheio os olhos se cruzavam várias vezes, agora não mais de forma involuntária,
mas de forma consciente e proposital.
E agora? E faria o que? Não pensou muito, só havia algo a
fazer... Não era possível alinhar as janelas, não era possível trocar de faixa,
só restava fazer o que pensou em fazer. Sem pensar muito, olhou em direção ao
retrovisor alheio e viu que os olhos estavam se aproximando, se aproximando,
cada vez mais.
Até que inevitavelmente................................................................
Até que inevitavelmente, ele virou a esquerda e os olhos do retrovisor seguiram em frente.
ResponderExcluirVocê escreve bem, ou descreve bem...rsrs
Beijos
Espero que a Margot tenha errado o final!!
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