quarta-feira, 14 de novembro de 2012

E?


Entre ir de um mercado a outro, o transito complicava, o tempo corria e a velocidade do carro diminuía; só restava assim olhar pela janela, já que o rádio estava devidamente sintonizado na estação preferida que só tocava anos 80 internacional.
Já passava do meio-dia, o tempo estava abafado, mas não havia sol; havia sim um enorme encontro de nuvens grandes que deixavam o céu gris, mas a probabilidade de chuva era pequena, mesmo com o tempo abafado.
A janela do seu lado estava aberta, o braço jazia pelo lado de fora, mesmo correndo o risco de ficar com marca da manga da camisa, mas era costume isso acontecer e ele não se importava. Pela outra janela o transito passava, passava e passava; passavam também as pessoas, pedestres, motoqueiros, ônibus... Sinal aberto, sinal fechado, placa de pare, faixa de pedestre, tudo transcorria normalmente em um fluxo ordenado de carros, asfalto, escapamentos e sons aleatórios.
O carro da frente abre passagem, muda de faixa e surge a primeira imagem, pelo retrovisor alheio nota-se apenas o semblante, os olhos, sobrancelhas, bem desenhados, proporcionais. Quando o carro assume a sua direita, o acelerador sofre uma pequena pressão, as janelas se alinham e surge uma visão mais completa. Perfil alinhado, barba feita, camisa de manga longa com abotoadura, algo realmente singular; a placa era de pare, o transito pára, as janelas se desalinham, o carro fica para trás...
A visão pelo retrovisor próprio é perfeita; olhos castanhos, nariz proporcional, boca idem, cabelo penteado sem uso de gel, impecável. O transito segue, ele segue, e decide seguir; a seta alheia é acionada, a mudança de faixa mais uma vez lhe favoreceria, decide dar passagem, mais uma vez as janelas se alinham, e dessa vez os olhares se cruzam; por segundos parados pelo tempo, seus olhos trocam informações, estão alinhados, como as janelas dos seus carros, como seus carros.
Mas, quis o destino que o transito seguisse seu fluxo, e para isso era preciso dar passagem. E o freio foi acionado, de leve, desalinhando os carros, as janelas, os olhos, e o carro mudou de faixa, ficou a frente. O transito seguiu o fluxo, placa pare, semáforo vermelho, verde, e o fluxo seguia. Decidido também a segui-lo, ele foi; seguiu mesmo tendo o tempo e os compromissos contra, decidiu que valia a pena só pela emoção de ficar olhando pelo retrovisor alheio e ver apenas o semblante, mas era o semblante mais encantador que já tinha visto.
A rua os estava levando para longe de seu local de destino, deveria continuar? Deveria, afinal eram os olhos que estavam o chamando... E esses olhos já haviam percebido que seus olhos o estavam seguindo. Pelo retrovisor alheio os olhos se cruzavam várias vezes, agora não mais de forma involuntária, mas de forma consciente e proposital.
E agora? E faria o que? Não pensou muito, só havia algo a fazer... Não era possível alinhar as janelas, não era possível trocar de faixa, só restava fazer o que pensou em fazer. Sem pensar muito, olhou em direção ao retrovisor alheio e viu que os olhos estavam se aproximando, se aproximando, cada vez mais.
Até que inevitavelmente................................................................

2 comentários:

  1. Até que inevitavelmente, ele virou a esquerda e os olhos do retrovisor seguiram em frente.

    Você escreve bem, ou descreve bem...rsrs

    Beijos

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  2. Espero que a Margot tenha errado o final!!

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