quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Hasteando a bandeira!


  
   Quem me conhece, sabe que não sou de levantar bandeira, não no sentido de ficar trovando sobre ser ou não ser gay, sobre direitos e deveres, sobre casamento ou não; eu tenho uma opinião sobre tudo isso, mas são assuntos que, assim como outros (religião, futebol e cerveja) que não costumo ficar conversando com os outros.
   Mas, em função dos últimos acontecimentos a mim relacionados, me atrevi a escrever esse texto, que reflete um pouco da minha opinião, e também porque acho que chega certo momento de nossas vidas, que devemos fazer o que temos vontade, devemos dar nossa opinião e devemos aproveitar as oportunidades...



   Muito se fala por ai sobre a aceitação ou não dos gays e de seus relacionamentos em nossa sociedade, essa mesma sociedade que acaba discutindo tantos outros assuntos, aceitando tantos outros, muitas vezes sem questionar tanto, mas que ainda patina na discussão de aceitar como normal ou não uma relação homossexual, seja ela entre dois homens ou duas mulheres.
   Ser gay, assim como várias outras coisas em nossa vida, não é uma opção, é algo que simplesmente se é; é algo que está dentro de cada um de nós, e que vai ser descoberto e permitido na hora que se bem entender ou que se estiver pronto para isso.
   Eu me descobri gay muito cedo, ainda na pré-adolescência, quando percebi que os garotos me atraiam mais do que as garotas; mas somente me permiti, aos 29 anos, após perder boa parte de minha juventude dentro do tal “armário” a que tanto falam. E eu fiquei por lá, justamente por medo de não ser aceito, primeiramente pelos pais, depois pela família, depois pela sociedade, essa mesma sociedade que prega uma liberdade de expressão, mas que sempre julgou (a ainda julga) que os gays são promíscuos, que só pensam em sexo a todo instante e, em épocas remotas, que eram os grandes responsáveis pela disseminação da Aids na sociedade.
   Por esses e outros motivos, mas principalmente pelo medo de rejeição, eu, assim como tantos outros, deixamos para muito tarde, quando não nunca, nos permitirmos a sermos gays, no sentido de se mostrar, ser visto, ser aceito (ou não) por essa sociedade, pela família, pelos pais.

   Muitos ainda pensam daquela maneira, que o gay é um cara promíscuo, que vive pelo sexo e não pensa em outra coisa; até acho possível que pessoas assim existam, eu não conheço nenhuma entre meus amigos ou colegas, mas essa imagem é algo que, ainda bem, já se perdeu pelo passar do tempo. Hoje sabemos que muitos de nós, conseguem ter uma relação única, fiel, chegando a anos de relacionamento, e eu fico muito feliz com isso. Fico muito feliz quando descubro que algum amigo, colega ou simplesmente conhecido, encontrou sua cara metade; fico feliz em saber que um namoro evoluiu e se transformou em casamento, mesmo que não nos moldes do casamento que a sociedade visualiza (falarei sobre isso mais tarde).
   Encontrar alguém não é uma tarefa fácil, não é fácil para um casal heterossexual, imaginem para um homossexual. Mas as pessoas pensam que é fácil, divertido e até mesmo simples. Não, não é. E não é, pelo simples fato de que, para começar, somos poucos, e muitos de nós se conhecem, o que em parte, dificulta a formação de um par; não é fácil pois muitos não se identificam, não se mostram, não se deixam percebem que são gays e que estão a procura de alguém, pelo mesmo fato da má aceitação da sociedade, ou ainda pela não aceitação própria, mas o fato é que não é sempre que conseguimos identificar alguém semelhante.    Existem também outros fatores que dificultam uma relação homossexual, afinal, diferente de uma relação hetero, não podemos, ou pelo menos ficamos limitados, em ter algumas atitudes ou gestos em todos os lugares, como beijar, andar de mãos dadas, fazer um carinho no rosto, e tantos outros que podem parecer simples, banais, mas que se forem feitos em determinados ambientes, podem até mesmo desenrolar uma reação violenta por parte de pessoas que não aceitam, e isso já vimos várias vezes em nossos noticiários.
Como disse, podem parecer coisas banais, pequenas, mas que no dia a dia, elas surgem como vontades naturais, e que muitas vezes devem ser reprimidas. Se formos analisar friamente, a intimidade mais banal de um casal gay, acaba ficando restrita a ambientes gays, como bares e boates, ou aos ambientes íntimos pessoais de cada um, quando isso é possível. Analisando mais friamente ainda, podemos até chegar a dizer que para ter uma relação, há de existir por trás toda uma estrutura, que chega a envolver local, condições financeiras e sociais para essa relação se manter, visto que a simples troca de carinho, haverá de ser feita de forma, quase, secreta.

   Isso é aceitável? Aos meus olhos, não. Aos meus olhos, eu adoraria poder sentar em qualquer praça, mesa de bar, poltrona de cinema e apertar a mão de meu companheiro sem o medo, meu ou dele, de sofrer algum tipo de discriminação, ofensa ou mesmo violência, da parte de quem não entende isso como um gesto natural e não ofensivo a ele ou a sociedade a qual ele pertence. Nós não pedimos para sermos aceitos, pois não somos estranhos, não somos de outro lugar e não estamos fazendo nada errado, apenas estamos seguindo nossos instintos; apertar a mão, beijar, fazer um carinho são demonstrações de afeto que pertencem a todos os animais, sejam eles humanos, primatas, aves, felinos ou de qualquer outra espécie, são gestos que estão intrínsecos nas nossas emoções e devem ser respeitados por todos.
   Ser gay não é uma opção como muitos ainda pensam, não podemos simplesmente apertar um botão de ligar ou desligar para gostar de homens ou mulheres, não existe isso; mas ter respeito, aprender a respeitar, entender que somos pessoas como você, que o nosso caráter não é definido pela escolha do sexo com que nos relacionamos, e que acima de tudo, temos emoções, temos sentimentos, isso é possível, isso é uma escolha, e se cada um fizer a escolha certa, todos temos a ganhar.

4 comentários:

  1. Perfeito seu ponto de vista, concordo com suas palavras....
    Com certeza a questão de ser gay não é opção, e sim condição, algo sem escolhas...
    Confesso que fiz algumas terapias psicológicas para me aceitar, que me ajudou um pouco, mas não completamente, pois para alguns isto é fácil, e para outros não é tão fácil assim, afinal cada um vive de uma forma, e tem uma história de vida.

    Abraços!

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  2. Mabe, excelente texto! Acho que vc chegou no famoso momento de "apertar o botão foda-se" e hastear a bandeira, não porque é militante, não porque quer mudar o mundo, mas porque decidiu que os outros não vão definir quem vc é, ou a sua felicidade! Todos passamos por momentos assim na vida e foi muito legal vc compartilhar o seu conosco! Há um tempo atras escrevei um post EU ACHO UM SACO SER GAY que tb exprime um pouco do que falou aqui! abs e bom começo de 2014

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  3. Perfeitas suas considerações, assino em baixo com reconhecimento de firma por autenticidade.

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  4. Nossa! Você abordou tão lindamente esse assunto, que nem tenho o que comentar! Parabéns! Resta dizer que concordo em número, gênero e grau com tudo. E o fechamento: não optamos por ser gay (e isso nem importa assim tão fundamentalmente, né!), mas podemos e devemos optar por tantas outras coisas, essas sim, essenciais para nossas vidas!

    Novamente quero agradecer às suas palavras lá no meu blog. Você é psicólogo? (rs)

    Abração

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