Quem me conhece, sabe que não sou de levantar bandeira, não
no sentido de ficar trovando sobre ser ou não ser gay, sobre direitos e
deveres, sobre casamento ou não; eu tenho uma opinião sobre tudo isso, mas são
assuntos que, assim como outros (religião, futebol e cerveja) que não costumo
ficar conversando com os outros.
Mas, em função dos últimos acontecimentos a mim
relacionados, me atrevi a escrever esse texto, que reflete um pouco da minha
opinião, e também porque acho que chega certo momento de nossas vidas, que
devemos fazer o que temos vontade, devemos dar nossa opinião e devemos
aproveitar as oportunidades...
Muito se fala por ai sobre a aceitação ou não dos gays e de
seus relacionamentos em nossa sociedade, essa mesma sociedade que acaba
discutindo tantos outros assuntos, aceitando tantos outros, muitas vezes sem
questionar tanto, mas que ainda patina na discussão de aceitar como normal ou
não uma relação homossexual, seja ela entre dois homens ou duas mulheres.
Ser gay, assim como várias outras coisas em nossa vida, não
é uma opção, é algo que simplesmente se é; é algo que está dentro de cada um de
nós, e que vai ser descoberto e permitido na hora que se bem entender ou que se
estiver pronto para isso.
Eu me descobri gay muito cedo, ainda na pré-adolescência,
quando percebi que os garotos me atraiam mais do que as garotas; mas somente me
permiti, aos 29 anos, após perder boa parte de minha juventude dentro do tal
“armário” a que tanto falam. E eu fiquei por lá, justamente por medo de não ser
aceito, primeiramente pelos pais, depois pela família, depois pela sociedade,
essa mesma sociedade que prega uma liberdade de expressão, mas que sempre
julgou (a ainda julga) que os gays são promíscuos, que só pensam em sexo a todo
instante e, em épocas remotas, que eram os grandes responsáveis pela
disseminação da Aids na sociedade.
Por esses e outros motivos, mas principalmente pelo medo de
rejeição, eu, assim como tantos outros, deixamos para muito tarde, quando não
nunca, nos permitirmos a sermos gays, no sentido de se mostrar, ser visto, ser
aceito (ou não) por essa sociedade, pela família, pelos pais.
Muitos ainda pensam daquela maneira, que o gay é um cara
promíscuo, que vive pelo sexo e não pensa em outra coisa; até acho possível que
pessoas assim existam, eu não conheço nenhuma entre meus amigos ou colegas, mas
essa imagem é algo que, ainda bem, já se perdeu pelo passar do tempo. Hoje
sabemos que muitos de nós, conseguem ter uma relação única, fiel, chegando a
anos de relacionamento, e eu fico muito feliz com isso. Fico muito feliz quando
descubro que algum amigo, colega ou simplesmente conhecido, encontrou sua cara
metade; fico feliz em saber que um namoro evoluiu e se transformou em
casamento, mesmo que não nos moldes do casamento que a sociedade visualiza
(falarei sobre isso mais tarde).
Encontrar alguém não é uma tarefa fácil, não é fácil para um
casal heterossexual, imaginem para um homossexual. Mas as pessoas pensam que é
fácil, divertido e até mesmo simples. Não, não é. E não é, pelo simples fato de
que, para começar, somos poucos, e muitos de nós se conhecem, o que em parte,
dificulta a formação de um par; não é fácil pois muitos não se identificam, não
se mostram, não se deixam percebem que são gays e que estão a procura de
alguém, pelo mesmo fato da má aceitação da sociedade, ou ainda pela não
aceitação própria, mas o fato é que não é sempre que conseguimos identificar
alguém semelhante. Existem também outros fatores que dificultam uma relação
homossexual, afinal, diferente de uma relação hetero, não podemos, ou pelo
menos ficamos limitados, em ter algumas atitudes ou gestos em todos os lugares,
como beijar, andar de mãos dadas, fazer um carinho no rosto, e tantos outros
que podem parecer simples, banais, mas que se forem feitos em determinados
ambientes, podem até mesmo desenrolar uma reação violenta por parte de pessoas
que não aceitam, e isso já vimos várias vezes em nossos noticiários.
Como disse, podem parecer coisas banais, pequenas, mas que
no dia a dia, elas surgem como vontades naturais, e que muitas vezes devem ser
reprimidas. Se formos analisar friamente, a intimidade mais banal de um casal
gay, acaba ficando restrita a ambientes gays, como bares e boates, ou aos
ambientes íntimos pessoais de cada um, quando isso é possível. Analisando mais
friamente ainda, podemos até chegar a dizer que para ter uma relação, há de
existir por trás toda uma estrutura, que chega a envolver local, condições
financeiras e sociais para essa relação se manter, visto que a simples troca de
carinho, haverá de ser feita de forma, quase, secreta.
Isso é aceitável? Aos meus olhos, não. Aos meus olhos, eu
adoraria poder sentar em qualquer praça, mesa de bar, poltrona de cinema e
apertar a mão de meu companheiro sem o medo, meu ou dele, de sofrer algum tipo
de discriminação, ofensa ou mesmo violência, da parte de quem não entende isso
como um gesto natural e não ofensivo a ele ou a sociedade a qual ele pertence.
Nós não pedimos para sermos aceitos, pois não somos estranhos, não somos de outro
lugar e não estamos fazendo nada errado, apenas estamos seguindo nossos
instintos; apertar a mão, beijar, fazer um carinho são demonstrações de afeto
que pertencem a todos os animais, sejam eles humanos, primatas, aves, felinos
ou de qualquer outra espécie, são gestos que estão intrínsecos nas nossas
emoções e devem ser respeitados por todos.
Ser gay não é uma
opção como muitos ainda pensam, não podemos simplesmente apertar um botão de
ligar ou desligar para gostar de homens ou mulheres, não existe isso; mas ter
respeito, aprender a respeitar, entender que somos pessoas como você, que o
nosso caráter não é definido pela escolha do sexo com que nos relacionamos, e
que acima de tudo, temos emoções, temos sentimentos, isso é possível, isso é
uma escolha, e se cada um fizer a escolha certa, todos temos a ganhar.
Perfeito seu ponto de vista, concordo com suas palavras....
ResponderExcluirCom certeza a questão de ser gay não é opção, e sim condição, algo sem escolhas...
Confesso que fiz algumas terapias psicológicas para me aceitar, que me ajudou um pouco, mas não completamente, pois para alguns isto é fácil, e para outros não é tão fácil assim, afinal cada um vive de uma forma, e tem uma história de vida.
Abraços!
Mabe, excelente texto! Acho que vc chegou no famoso momento de "apertar o botão foda-se" e hastear a bandeira, não porque é militante, não porque quer mudar o mundo, mas porque decidiu que os outros não vão definir quem vc é, ou a sua felicidade! Todos passamos por momentos assim na vida e foi muito legal vc compartilhar o seu conosco! Há um tempo atras escrevei um post EU ACHO UM SACO SER GAY que tb exprime um pouco do que falou aqui! abs e bom começo de 2014
ResponderExcluirPerfeitas suas considerações, assino em baixo com reconhecimento de firma por autenticidade.
ResponderExcluirNossa! Você abordou tão lindamente esse assunto, que nem tenho o que comentar! Parabéns! Resta dizer que concordo em número, gênero e grau com tudo. E o fechamento: não optamos por ser gay (e isso nem importa assim tão fundamentalmente, né!), mas podemos e devemos optar por tantas outras coisas, essas sim, essenciais para nossas vidas!
ResponderExcluirNovamente quero agradecer às suas palavras lá no meu blog. Você é psicólogo? (rs)
Abração