Esse texto surge da conversa com uma grande amiga, cujo
ponto de partida foi a participação dela em um programa de rádio sobre rock, e
de onde saiu toda uma discussão de como as pessoas acabam se prendendo e
também, colando rótulos nas pessoas, como se fossem meros produtos em
prateleiras.
Sempre que vou ao mercado, ou aos mercados, independente do
que eu queira comprar, se estou com tempo sobrando, acabo passeando por todas
as sessões, para ver os produtos, ver as novidades, ou mesmo quem sabe, fazer
aquela compra por impulso não programada, só porque gostei do produto, do
rótulo, ou mesmo porque fui conquistado pelo marketing ali envolvido.
Por mais que os produtos estejam separados, que as bolachas
fiquem longe dos produtos de limpeza, mas perto do café e quase ao lado do
leite e dos pães, que os frios fiquem todos próximos, e que os descartáveis
fiquem lá escondidos juntos com os artigos de lar, sempre um ou outro produto
aparece em prateleira alheia, como se “completasse” aquele produto ali exposto.
Pode perceber, que o queijo ralado, sempre vai ter o lugar
dele garantido junto com os outros queijos, mas vez ou outra, sempre tem uma
fileira de pacotinhos próximos aos molhos de tomate ou as massas. Pode notar,
sempre tem uma porção de saca rolhas ou taças de vinho perto das prateleiras de
bebidas, mesmo que o lugar deles seja lá nos utensílios para o lar.
São cenas normais, ninguém fica se perguntando por que essas
coisas não estão em seus devidos lugares, simplesmente aceitam que são produtos
que podem ir de um lado para outro. Estranho como esse mesmo “conceito” não se
aplica as pessoas. Estranho como o próprio ser humano se sente obrigado a
colocar “pré-conceitos” em seus semelhantes.
Voltando um pouco na origem do texto, durante o tal
programa, a discussão criada foi que minha amiga não era “roqueira” pois não
gostava dos padrões normais das bandas de rock, conhecia outras bandas, por um
lado mais alternativo, mas profundo até; não ficava naquele estereótipo de
roqueiro com camiseta preta do Ramones, camisa de flanela xadrez na cintura e
tênis de cano alto.
As pessoas são livres, elas se vestem, elas comem, elas
ouvem, elas gostam do que querem, sem ter que para isso pertencerem à
determinada tribo, determinada classe sociais ou seguirem certos tipos de moda.
Gostar de algo, não é necessariamente gostar de tudo a que aquilo está ligado,
simplesmente porque a sociedade assim rotulou. Gostar de ler não implica que
você viva dentro de uma biblioteca, muito menos que seja aquela figura caricata
de óculos sempre com um livro em mãos. Gostar de música clássica não te impede
de ir em um show da banda pop do momento; e não gostar de comer carne, não te
faz um alienígena quando você é convidado para uma festa com churrasco.
Temos o que chamamos de livre arbítrio, que podemos fazer
escolhas, que podemos decidir como somos e como queremos ser, a sociedade
precisa aprender a respeitar as escolhas pessoais de cada um, e a parar de
rotular os outros, impedido-os, ou pelo menos dificultando sua integração na
sociedade. Isso, além de ser “pré-conceito” é preconceito. Não entender o
próximo, não respeitar suas escolhas, nem ao menos tentar dialogar ou descobrir
porque ele é assim, e sim, a partir disso criar um “conceito” sobre essa
pessoa, é algo que a sociedade deveria pensar em fazer. Mas não, é mais simples
colar um rótulo no vasilhame ditando do que ele gosta, como se veste, quem pode
ser teu amigo, onde pode ir, com quem pode conversar...em que prateleira do
mercado deve ficar...
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