Era
para ser uma manhã como outra qualquer, ensolarada, em uma primavera quente e
seca, perfeita para ir a piscina, como já planejado, com a única diferença que
era meio da semana, em dia de feriado (quase) local. Eu, não tive dúvida, fui
aproveitar essa chance...
O
programado era de acontecer sempre o mesmo ritual, caminhar antes de nadar,
nadar, tomar sol, entrar mudo e sair calado da piscina, sendo interrompido
apenas pela música vinda dos fones de ouvidos ou por algum ou outro barulho que
poderia ser entre um grito de criança ou um canto de pássaro, o que fosse de
timbre mais alto...
A
caminhada foi trocada por uma corrida, rara, mas se tornando habitual, e logo
em seguida, o plano original começou a ser colocado em prática. Eu nunca fui de
conversar com estranhos, me fecho em uma concha e nela fico, como se o mundo
exterior não me atingisse, mas dessa vez foi diferente.
Não
tinha como não notá-la já na entrada da piscina, ela se fez presente, bem
presente, mesmo eu não estando por perto, pude vê-la e ouvi-la. E ao entrar na
água, ela praticamente entrou junto, e já conseguiu me tirar um leve sorriso de
canto de boca...
Como
sempre, nadei, nadei e nadei, afinal, era para isso que eu estava lá; e mesmo
nadando, eu a notava, e mesmo a notando, quase esbarrei nela sem querer, mas
consegui desviar a tempo; mas isso não a impediu de vir falar comigo.
Chegou
perto, perguntou meu nome, eu o dela, quais as músicas que eu gostava, se era
da cidade mesmo, e outras questões mais, e teve todas as respostas.
Me
questionou quantas pessoas havia na piscina, e eu rapidamente contei umas 15,
entre adultos e crianças, dando destaque para uma senhora na borda oposta a que
estávamos, e ela me disse que iria lá, falar com ela, pois gostava de conversar
com os outros, mas que voltaria, pois tinha gostado de mim...
E
assim ela foi, atravessou a piscina em uma linha reta incrível, sem o menor
desvio e lá na borda chegou, encontrou a senhora e ficaram a conversar,
enquanto eu ficava a nadar e a observar de longe o desenrolar da conversa.
Ao
chegar novamente na borda, lá estava ela, já me esperando, no mesmo lugar que
disse anteriormente que iria voltar, e mais uma vez, começamos a conversar,
sobre tudo e sobre o nada, assuntos sem importância, para mim, ou muito importante
para ela, não sei, a única coisa que sei, é que aquele mundo que outrora era
restrito e fechado, se abriu, se diluiu e todos estavam lá, participando.
De
uma borda a outra, dentro ou fora da água, não importava; importava apenas a
nossa conversa, e o sorriso que ela, com seu jeito simples, conseguia arrancar
da minha face outrora sisuda. A manhã foi passando, mais pessoas participando
dessa conversa, mais sons sendo agregados, era um grito aqui, outro ali, outro
acolá, e ela, sempre atenta, a tudo e a todos, mas também sempre com a atenção
de todos a tua volta.
A
manhã foi passando, as horas foram sumindo, e só notei o passar do tempo por
conta do calor do sol que aumentava, até chegar o momento de me despedir...
E
foi na despedida que ela me pediu – “Posso te ver?” – e eu deixei ela encostar
seus dedos na minha face, tocando-a e percebendo todos os detalhes, até ela
dizer – “Você é lindo!” – e ganhei um beijo de despedida.
Peguei
minhas coisas, fui ao vestiário, troquei de roupa e segui meu caminho para
casa, com um sorriso estampado no rosto, retrato vivo de uma manhã fora do
comum, onde meu único pensamento era – “a vida é mesmo cheia de boas
surpresas...”.
E
eu continuei sorrindo, lembrando da alegria e espontaneidade daquela garota, de
16 anos, cega, mas com uns olhos que enxergavam muito mais além do que nós...
É... e como já disse Exupéry: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos."
ResponderExcluirAs vezes a gente se esquece disso... ;-)
simplesmente emocionante!
ResponderExcluirAdorei seu comentário. Me senti representado. Obrigado. :)
ResponderExcluirE não é lindo isso? Apenas temos que estar abertos à novas possibilidades.
ResponderExcluirAbraço imenso.