quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Com os olhos da alma...


                Era para ser uma manhã como outra qualquer, ensolarada, em uma primavera quente e seca, perfeita para ir a piscina, como já planejado, com a única diferença que era meio da semana, em dia de feriado (quase) local. Eu, não tive dúvida, fui aproveitar essa chance...
                O programado era de acontecer sempre o mesmo ritual, caminhar antes de nadar, nadar, tomar sol, entrar mudo e sair calado da piscina, sendo interrompido apenas pela música vinda dos fones de ouvidos ou por algum ou outro barulho que poderia ser entre um grito de criança ou um canto de pássaro, o que fosse de timbre mais alto...

                A caminhada foi trocada por uma corrida, rara, mas se tornando habitual, e logo em seguida, o plano original começou a ser colocado em prática. Eu nunca fui de conversar com estranhos, me fecho em uma concha e nela fico, como se o mundo exterior não me atingisse, mas dessa vez foi diferente.
                Não tinha como não notá-la já na entrada da piscina, ela se fez presente, bem presente, mesmo eu não estando por perto, pude vê-la e ouvi-la. E ao entrar na água, ela praticamente entrou junto, e já conseguiu me tirar um leve sorriso de canto de boca...
                Como sempre, nadei, nadei e nadei, afinal, era para isso que eu estava lá; e mesmo nadando, eu a notava, e mesmo a notando, quase esbarrei nela sem querer, mas consegui desviar a tempo; mas isso não a impediu de vir falar comigo.
                Chegou perto, perguntou meu nome, eu o dela, quais as músicas que eu gostava, se era da cidade mesmo, e outras questões mais, e teve todas as respostas.
                Me questionou quantas pessoas havia na piscina, e eu rapidamente contei umas 15, entre adultos e crianças, dando destaque para uma senhora na borda oposta a que estávamos, e ela me disse que iria lá, falar com ela, pois gostava de conversar com os outros, mas que voltaria, pois tinha gostado de mim...

                E assim ela foi, atravessou a piscina em uma linha reta incrível, sem o menor desvio e lá na borda chegou, encontrou a senhora e ficaram a conversar, enquanto eu ficava a nadar e a observar de longe o desenrolar da conversa.
                Ao chegar novamente na borda, lá estava ela, já me esperando, no mesmo lugar que disse anteriormente que iria voltar, e mais uma vez, começamos a conversar, sobre tudo e sobre o nada, assuntos sem importância, para mim, ou muito importante para ela, não sei, a única coisa que sei, é que aquele mundo que outrora era restrito e fechado, se abriu, se diluiu e todos estavam lá, participando.

                De uma borda a outra, dentro ou fora da água, não importava; importava apenas a nossa conversa, e o sorriso que ela, com seu jeito simples, conseguia arrancar da minha face outrora sisuda. A manhã foi passando, mais pessoas participando dessa conversa, mais sons sendo agregados, era um grito aqui, outro ali, outro acolá, e ela, sempre atenta, a tudo e a todos, mas também sempre com a atenção de todos a tua volta.
                A manhã foi passando, as horas foram sumindo, e só notei o passar do tempo por conta do calor do sol que aumentava, até chegar o momento de me despedir...

                E foi na despedida que ela me pediu – “Posso te ver?” – e eu deixei ela encostar seus dedos na minha face, tocando-a e percebendo todos os detalhes, até ela dizer – “Você é lindo!” – e ganhei um beijo de despedida.
                Peguei minhas coisas, fui ao vestiário, troquei de roupa e segui meu caminho para casa, com um sorriso estampado no rosto, retrato vivo de uma manhã fora do comum, onde meu único pensamento era – “a vida é mesmo cheia de boas surpresas...”.


                E eu continuei sorrindo, lembrando da alegria e espontaneidade daquela garota, de 16 anos, cega, mas com uns olhos que enxergavam muito mais além do que nós...

4 comentários:

  1. É... e como já disse Exupéry: "Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos."
    As vezes a gente se esquece disso... ;-)

    ResponderExcluir
  2. Adorei seu comentário. Me senti representado. Obrigado. :)

    ResponderExcluir
  3. E não é lindo isso? Apenas temos que estar abertos à novas possibilidades.
    Abraço imenso.

    ResponderExcluir