Dia 1
Não era a
melhor manhã daquela semana, e muito menos por se tratar de um domingo, mas era
o que tinha para aquele dia, seu único dia de folga e amanhecera nublado e com
uma leve garoa. Lembrava as manhãs que estava no sul do Chile, sempre frio e
com vento, tudo isso acompanhado de uma névoa tão espessa que deixava toda e
qualquer roupa molhada.
Apesar de ser
cedo para o padrão da maioria das pessoas, tinha combinado com tua amiga de
irem jogar vôlei no parque; saiu de casa perdendo hora, sem nem dar atenção
para seu gato preto que dormia ainda enrolado nos lençóis da cama. Quando
chegou na portaria, Ana já estava lá, com a bola na mão, óculos de sol em pleno
dia cinzento e com um sorriso no rosto que era incompatível com o fato dela
detestar acordar cedo.
A garoa tinha
cessado, momento perfeito para desfrutarem uma manhã ao ar livre, mesmo que
fosse um ar congelante para o padrão primaveril. Jogaram até não agüentarem
mais e se divertiram muito, como a muito não faziam. E resolveram ao final, comer
algo na padaria que ficava em um centro comercial próximo. E lá foram.
Ele
estava quase chegando ao estacionamento, quando avistou de longe um carro
saindo, acelerou para aproveitar a vaga, e a tempo suficiente para ver, dentro
do carro, ele; olhos castanhos, barba cerrada, óculos pequeno, boné e um enorme
sorriso no rosto, que se inclinou agradecendo a este, por ter parado e esperado
sair da vaga, cedendo-a.
Dia 5
A
semana se arrastava, e ele só pensava em ir embora ao final do expediente e
passar no mercado 24 horas, tomar um bom café acompanhado de um croissant de
amêndoas, fazer uma pequena compra e seguir direto para seu apartamento, dar
comida para o Félix e se esticar todo na chaise para assistir ao seu seriado
preferido.
Chegando
ao mercado, resolveu fazer as compras primeiro, pois não havia mesa vaga no
café. Foi direto para a sessão de queijos, lembrou que tinha prometido fazer
seu risoto camponês para Ana e o noivo na noite seguinte, e iria aproveitar
para comprar o que faltava para a receita. Enquanto olhava distraidamente os
mais variados tipos de queijos e derivados na gôndola, não pode deixar de notar
que do outro lado, uma figura parecia se mover lentamente. Resolveu parar e
olhar mais atentamente; era ele, que o olhava diretamente por entre os produtos
pendurados logo acima e que criavam uma barreira física entre eles, mas não
visual.
Olhou,
sorriu e recebeu em troca um sorriso. Ainda sorrindo, resolveu ir até ele dando
a volta na gôndola; mas durante o caminho de pouco mais de 6 metros, o outro
foi abordado por um casal de amigos que ficaram a conversar, e resolveu, mesmo
tendo olhado por uma última vez a ele, que seguiria outro caminho, em direção
ao caixa dessa vez.
Dia 14
A
manhã de sábado nascia ensolarada e ele já tinha tudo programado para aquele
final de semana longe da cidade. Combinara com Carlos, seu amigo mais antigo,
que iriam junto com Helena e Jorge a fazenda deste último, em uma cidade não
distante 100 km dali.
Iria
de carona com Carlos, que se prontificou a passar pegá-lo às 6h da manhã em
ponto. Decididamente adorava acordar cedo aos finais de semana, achava que
assim o dia duraria mais e tudo podia ser feito com mais tranqüilidade. Mas
sabia que Carlos, apesar da sua descendência britânica, tinha mesmo um bom
costume brasileiro de perder a hora.
Assim,
não se importou em tomar um bom café da manhã, alimentar Félix, ir para um
banho demorado. Entrou no banheiro, abriu o registro o máximo que era possível
e ligou o mp3 que sempre ficava posicionado na bancada. A água caia forte e
fria sobre sua pele, provocando um arrepio por toda ela que o fizera despertar
ainda mais naquela manhã quente. Enquanto desfrutava de um banho, acompanhado
apenas de Florence and The Machine que tocava tão alto quanto possível, ele não
escutou seu celular tocar e registrar o nome de Carlos no visor frontal.
Em
um movimento sincronizado, entre fechar o registro e esticar o braço para pegar
a toalha, ouviu que algo mais tocava além da melodia programada, parou por
segundos e logo reconheceu o toque de seu celular, que registrava várias
chamadas perdidas, todas de Carlos. Resolveu lhe ligar e só escutou do outro
lado da linha – “estou na frente do seu prédio”. Justo nesse dia, seu amigo que
sempre atrasava, resolve ser mais pontual que a Rainha da Inglaterra.
Nem
chegou a ver quanto tempo levou para se trocar, pegar as coisas e descer as
escadas, pois o elevador estava parado 10 andares acima do seu. Do hall,
avistou Carlos dentro de seu jipe Willys que sempre usava para ir à fazenda de
Jorge. Acelerou o passo, deu bom dia ao porteiro que destravou o portão para ti
e chegou a calçada, tão rapidamente que não conseguiu parar e deu de encontro
diretamente com ele, indo os dois ao chão.
Olharam-se,
levantaram-se, desculparam-se, tudo isso sob olhar e sorriso de canto de boca
de Carlos, que sentiu no ar a estranha atmosfera que formou-se entre eles.
Dia 20
A
sexta-feira era dia de sair com os amigos ou de jantar em sua casa, sempre
acompanhado de um ou dois amigos, mas como não tinha planejado nem uma coisa e
nem outra para hoje, ele resolveu ri ao shopping, passear, ver vitrines e fazer
alguma compra supérflua de roupa ou artigo para casa; não importava, queria sim
descansar os olhos.
Achou
uma vaga próxima da entrada secundária, o que lhe agradava visto que uma nuvem
cinza e espessa acabara de se formar sobre a cidade, caso precisasse correr,
pelo menos estava perto; e também preferia aquela entrada pelo motivo de ser
menos utilizada, e o que menos queria nessa tarde de sexta era ser incomodado
pelos outros.
Andou
sem destino, parou nas vitrines de roupa, de jóias, de óculos, e parou muito
tempo na livraria, lendo e folheando livros a procura de algo interessante para
levar para casa e que lhe fizesse companhia neste final de semana, que estava
sem programação definida.
Alguns
romances lhe chamaram atenção, assim como livros de culinária e de arte, mas
acabou decidindo-se por uma autobiografia de um cineasta francês, de quem
admirava muito. A caminho do caixa, sua atenção foi voltada novamente para uma
figura conhecida, que por uma razão que desconhecia, lhe chamava atenção. Era
ele, novamente. Sentado em uma poltrona, distante uns 4 metros de onde se
encontrava, com um livro parcialmente fechado nas mãos, este lhe olhava
diretamente, e abria um sorriso que lhe preenchia todo o rosto delicado, mesmo
com a espessa barba castanha que se fazia presente.
Parou.
Se continuasse iria direto para o caixa, se desviasse para sua esquerda iria em
direção a ele. Olhou para a fila do caixa. Nove pessoas. Olhou para ele, o
sorriso continuava lá. Olhou novamente para a fila, que dessa vez já contava
com mais 2 pessoas. Resolveu tomar o caminho da esquerda.
Quando
o outro percebeu que ele se dirigia em sua direção, levantou-se. O caminho
entre eles deveria ser percorrido por poucos passos, mas parecia tão longo que
a cada passada a distância aumentava. Finalmente estavam frente a frente,
sorriram, cumprimentaram-se, apresentaram-se. Ele era Paulo, e o outro era
Fernando.
Fernando
fez um sinal, seguido de um convite para se sentarem no café da livraria, onde
poderiam enfim, conversarem. Prontamente Paulo aceitou, lembrando que após
tantos encontros coincidentes, agora estavam finalmente se conhecendo.
Dois
espressos foram servidos, acompanhados apenas das mãos de Fernando sobre a
mesa, que entrelaçavam seus próprios dedos, em uma clara demonstração de
ansiedade, percebida por Paulo. O sorriso ainda era presente em meio aos fios
da barba castanha com pequenos fios grisalhos que, de perto, eram notados,
dando mais charme a já irresistível face.
Conversaram
durante horas, sobre arte, sobre política, sobre amores, sobre seus encontros
desencontrados; horas que nem perceberam passar, horas que foram preenchidas
por palavras doces e divertidas vindas das bocas de ambos, e que chegavam aos
seus ouvidos criando uma melodia agradável, com vontade de quero mais.
Em
um gesto involuntário, Paulo pousou sua mão sobre as mãos de Fernando, que se
encontravam novamente sobre a mesa, dando-lhe assim uma pequena pausa em suas
palavras e em sua mente. Seus olhos brilharam, assim como os de Paulo, que na
sequencia, o convidou-o a saírem dali e irem conversar mais reservadamente em
seu apartamento. Fernando prontamente aceitou, e assim, ambos se levantaram e
dirigiram-se a saída. Por mais uma dessas coincidências, seus carros estavam
parados próximos, com a diferença de duas vagas entre eles, o que seria mais
sorte ainda, pois a nuvem cinzenta que se formara quando Paulo chegou, desabara
em formato de uma tempestade tropical.
Correram
em direção aos carros, Fernando chegou primeiro e entrou, Paulo postou-se
perante a porta do veículo, clicando o botão do controle eletrônico para que
esta destravasse, mas nada aconteceu. Ficou ali por segundos, que foram o
suficiente para encharcar sua camisa de linho branca.
Olhou
em direção ao carro de Fernando, que já não estava mais na vaga, mas que havia
parado atrás do seu, e cuja porta do passageiro se abria, mostrando Fernando
gesticulando e gritando em sua direção para que deixasse o veículo ali e
entrasse. E foi o que Paulo fez. Sentou ao lado de Fernando, todo molhando,
pingando e com frio, apesar do tempo quente que tinha feito durante todo aquele
dia.
Seguiram
direto para a casa de Fernando, que era mais próxima, pois Paulo aceitara o
convite para trocar de roupa e voltarem mais tarde para pegar seu carro.
Fernando morava em um condomínio localizado próximo ao shopping, de fácil
acesso por vias expressas, e assim ficaria prático retornarem logo após a chuva
cessar.
Como
anfitrião, Fernando se mostrou impecável, cedeu-lhe qualquer peça de roupa do
seu armário, assim que adentraram o quarto, assim como ofereceu uma toalha para
que Paulo se enxugasse, que foi prontamente aceita.
Paulo
começou a tirar com dificuldade a camisa molhada, que havia grudado em seu
corpo, e sem pedir, recebeu ajuda de Fernando. Este lhe segurou a camisa pela
frente, forçando-a para baixo, em um movimento que involuntariamente, aproximou
ambos. Seus corpos se tocaram suavemente, seus lábios se aproximaram, e assim
que Paulo se viu com as mãos livres, entrelaçou-as pelos cabelos de Fernando,
puxando-o para juntos de si e se beijaram.
Em
uma sequencia onde mãos e braços se contorciam e deslizavam por todas as partes
dos corpos deles, roupas foram atiradas ao chão, lençóis foram desarrumados, e
corpos que antes eram dois, mas que agora formavam uma única peça, eles
deitaram e se amaram. Amaram loucamente como antes nunca houveram feito. Amaram
verdadeiramente como se fosse a última vez para ambos, como se nada mais
houvesse fora daquele quarto, se amaram sob o som da chuva e dos flashes de
luzes criados pelos raios que entravam pelo grande vitral presente na parede
lateral.
Se
amaram sem se importarem com as horas, durante toda aquela noite, por diversas
vezes, beijavam-se e acariciavam um ao outro, para se amarem novamente em
seguida; e assim foi durante toda a noite, até perderem a consciência, e
exaustos de amor, adormecerem nos braços um do outro.
Uma
claridade impressionante vinda do grande vitral lateral despertou Paulo; por
segundos, sem saber onde estava e em um gesto automático, tentou alcançar seu
relógio na cabeceira da cama, mas não era sua cama, era a de Fernando, e ainda
com olhos cansados, abriu um sorriso lembrando onde estava e o que havia
ocorrido. Olhou ao lado e viu Fernando deitado suavemente de costas, a pele
lisa e bronzeada contratava com aquele rosto emoldurado pela barba que tanto
havia lhe cativado. Pousou suavemente sua mão sobre ele, acariciando-lhe de
forma singela; sentou-se na cama, olhou procurando suas roupas, seus pertences,
localizando-os espalhados pelo chão, logo acima do grande tapete persa que se
estendia além da cama.
Voltou
seus olhos para Fernando, que ainda dormia profundamente, e sem fazer grandes
movimentos, levantou-se e vestiu-se lentamente, procurando fazer o mínimo de
barulho possível. Pegou todos os seus pertences, olhou novamente para Fernando,
abriu um sorriso em sua direção, chegou mais perto e acariciou suavemente a
barba, dando-lhe um beijo em seguida.
Dirigiu-se
até a porta, abriu-a e saiu, fechando-a logo atrás dele. Abriu outro sorriso
recordando tudo que haviam passado e dirigiu-se a porta de saída. Atravessou
aquela soleira, com um sorriso no rosto e com uma certeza...
Não
voltaria mais.
Oi????? Como assim "não voltaria mais"? Poxa, não entendi... aliás, acho que entendi sim... ler uma história e viver uma história, são coisas completamente diferentes... enfim...
ResponderExcluirAbração!
PS: Jipe Willys, clássico hein?
Sim ... o Peter foi na mosca ... ler uma história é diferente de viver uma história ... simples assim ...
ResponderExcluirbjão
Simples e triste assim.
ResponderExcluirbjs